Cientistas descobrem ingrediente da vida em torno de estrelas-bebês do tipo solar

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Imagine descobrir no amplo e frio Universo estrelas como o nosso Sol, em fase inicial de formação, com o ingrediente da vida, bem longe da Terra. Pois foi exatamente isso o que o telescópio matriz Atacama de largo milímetro/submillímetro (Alma, do inglês Atacama Large Millimeter/submillimeter Array) – o mais poderoso para observação do Universo frio –, fez.

Região de formação estelar Rho Ophiuchi na constelação de Ofiúco
Região de formação estelar Rho Ophiuchi na constelação de Ofiúco (Foto: ESO/Digitized Sky Survey 2/Agradecimento a: Davide De Martin)

É a primeira vez que os cientistas detectaram a molécula isocianato de metila – bloco constituinte de vida – em protoestrelas do tipo solar, isto é, estrelas do tipo da protoestrela que deu origem ao Sol e, consequentemente, ao nosso Sistema Solar.

Duas equipes de astrônomos utilizaram o Alma, instalado no Chile, para detectar a molécula orgânica complexa pré-biótica de isocianato de metila no sistema estelar múltiplo IRAS 16293-2422, um sistema múltiplo de estrelas muito jovens situado a, aproximadamente, 400 anos-luz de distância na enorme região de formação estelar Rho Ophiuchi, na constelação do Ofiúco, ou Serpentário.

Uma das equipes foi liderada por Rafael Martín-Doménech, do Centro de Astrobiología de Madrid, Espanha, e por Víctor M. Rivilla, do INAF-Osservatorio Astrofisico di Arcetri, Florença, Itália, e a outra foi liderada por Niels Ligterink do Observatório de Leiden, Holanda e por Audrey Coutens do University College London, Reino Unido, que explicam a descoberta.

Este sistema estelar não para de nos surpreender. Depois da descoberta dos açúcares, descobrimos agora isocianato de metila. Esta família de moléculas orgânicas está ligada à síntese de peptídeos e aminoácidos, os quais formam, sob a forma de proteínas, a base biológica da vida tal como a conhecemos

As capacidades do telescópio permitiram às duas equipes observar a molécula ao longo do espectro rádio, a vários comprimentos de onda diferentes e bem característicos.

As equipes descobriram as ‘impressões digitais’ químicas únicas desta molécula nas regiões internas densas do casulo de gás e poeira que rodeia as estrelas jovens nas suas fases mais iniciais de evolução.

Alma detecta isocianato de metilo em torno de estrelas jovens do tipo solar
Alma detecta isocianato de metilo em torno de estrelas jovens do tipo solar (Arte: ESO/Digitized Sky Survey 2/L. Calçada)

Cada equipe identificou e isolou as assinaturas da molécula orgânica complexa de isocianato de metila. Em seguida, fizeram modelos químicos de computador e experiências em laboratório com o intuito de compreender ao máximo a maneira como esta molécula se forma.

Os novos resultados mostram que gás de isocianato de metila rodeia cada uma das estrelas jovens.

Formação da vida

A Terra e os outros planetas do nosso Sistema Solar formaram-se a partir de material que restou da formação do Sol. O estudo de protoestrelas do tipo solar pode, por isso, abrir aos astrônomos uma janela para o passado, permitindo-lhes observar condições semelhantes àquelas que levaram à formação do nosso Sistema Solar há cerca de 4,5 bilhões de anos atrás.

Rafael Martín-Doménech e Víctor M. Rivilla, autores principais de um dos artigos científicos que descreve estes resultados, comentam.

Estamos particularmente entusiasmados com estes resultados porque estas protoestrelas são muito semelhantes ao Sol no início da sua vida, apresentando o tipo de condições propícias à formação de planetas do tamanho da Terra. Ao encontrarmos moléculas prebióticas, temos agora outra peça do quebra-cabeças que é compreender como é que a vida começou no nosso planeta

Niels Ligterink está muito contente com os resultados complementares de seguimento feitos em laboratório.

Além de detectarmos moléculas, queremos também compreender como é que elas se formam. As nossas experiências laboratoriais mostram que o isocianato de metila pode efetivamente formar-se em partículas geladas sob condições de frio extremo, semelhantes às encontradas no espaço interestelar, o que implica que esta molécula — e por conseguinte, a base das ligações dos peptídeos — tem efetivamente uma grande probabilidade de estar presente próximo da maioria das estrelas jovens do tipo solar

A descoberta, agora, pode ajudar os astrônomos a entenderem melhor a origem da vida na Terra.

Jornalista graduado (DRT-MA nº 1.139), com ênfase em produção de conteúdo para web, edição de fotos e vídeos e desenvolvimento de infográficos; com passagem pelas redações do Imirante.com e G1 Maranhão; e vencedor de duas etapas estaduais do Prêmio Sebrae de Jornalismo, categoria Webjornalismo

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